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A biblioteca de babel
Revista Carta Capital - Edição de 21 de março de 2007
Foi em julho de 1939 que o senhor Luís deu início à travessia. Partiu de Lisboa. Mareou por 18 dias e, pés ainda zonzos, pisou no Porto de Santos, em São Paulo. Quatro horas depois, chegou à Praça da Sé. Continua lá até hoje. “Quisera eu ter a imaginação do Eça de Queirós para traçar daqui uma perspectiva desta cidade. Cá, vi a cidade mudar, ano após ano”, diz, olhos voltados para as janelas da livraria aberta em 1945.

No fim deste mês, Luís de Oliveira Dias deixará a Sé, ponto central da cidade de São Paulo. Com ele, partirá também a Ornabi, nome que soa a sobrenome, mas é uma sigla: Organizadora Nacional de Bibliotecas. Na Ornabi, já estiveram hospedados cerca de 400 mil livros. Raros. Usados. Pequeninos. Luxuosos. Tantos e vários que levaram a livraria, à revelia do dono, a ser chamada de sebo.
“Quando comecei a ouvir esse nome, pensei: ‘Não vou engolir uma ignomínia dessas. Minha livraria nunca foi um sebo. Sebo, na minha terra, é um açougue. Livros antigos são vendidos no alfarrábio. Tive uma livraria no Rio de Janeiro por quatro anos e nunca ouvi falar a palavra sebo. Eu sempre recusei, mas meus amigos diziam: ‘Quer queiras, quer não queiras, é a vontade popular’. Eu achava que com minha teimosia ia conseguir mudar isso. Que nada!”

Se os incríveis livros sempre atraíram a freguesia, a prosa do “seu” Luís, certamente, contribuiu para a fidelidade de muitos clientes. Sotaque lusitano, ironia a postos e histórias de 89 anos vividos, ele cheira a personagem de Eça. Mas não se deixa facilmente adivinhar. Bigode bem aparado, óculos que diminuem os olhos e veste clássica, o livreiro mantém, inicialmente, uma distância no trato, como costumam fazer os velhos cavalheiros. Mas, se identifica no interlocutor a paixão pelos livros, entra em veredas que levam a gentes e escritas perdidas.
Sentado à frente do telefone de disco que ainda faz “trim” e rodeado pela máquina de escrever Remington e pela calculadora Olivetti que funciona com bobina, “seu” Luís parece um manipulador do tempo. Seja pelos livros que possui, seja pelo ambiente intacto na sobreloja do prédio encravado na esquina das ruas Quintino Bocaiúva e Benjamin Constant, ele torna o passado vivaz.
“Olha cá este livro. Mil páginas. São endechas de Camões. Um poema de repentes feito para uma famosa escrava, Bárbara. A poesia tornou-se tão famosa que um escritor se propôs a traduzi-la para todas as línguas do mundo. Línguas vivas e mortas”, explica, enquanto folheia, com mãos cirúrgicas, o pesado livro do século XIX.
O volume chama-se Amor de Pretidão, foi engendrado por Xavier da Cunha e tem a chamada “justificação de tiragem”. “O chumbo em que são impressos livros com justificação é derretido depois da impressão. Assim, tem-se a garantia de que nunca será feito outro igual”, explica. O senhor Luís passou 50 anos com o exemplar. Mas acabou de vendê-lo, por 5 mil reais. “Quero me desprender de tudo.”

É isso que está fazendo. A Ornabi está em liquidação total. Os preços serão reduzidos semana após semana, até que sejam vendidos os cerca de 20 mil volumes que ainda estão ali. “Seu” Luís está convicto de que é hora de parar. A loja, antes dividida em espaços denominados Victor Hugo, Fernando Pessoa, Platão, Euclydes da Cunha, Ruy Barbosa, Santo Agostinho, Mário de Andrade e Platão, vem encolhendo há um bocado de anos. “Para diminuir o negócio, basta vender, sem comprar.”
Para explicar o baixar de portas, recorre a argumentos práticos. “Tenho de ir a Portugal e quero passar lá uns quatro meses. Tenho lá uma irmã, que tem 93 anos, mas é uma rosa em flor. Ela exigiu que eu lá estivesse no mês de maio para resolver umas coisas de herança. Além disso, estou no fim da fila. Eu quero passear.”
Os dias têm sido agitados. A notícia do fechamento da Ornabi se espalhou. Livreiros atrás de bons negócios, colecionadores ávidos e leitores curiosos ficam ali horas folheando páginas de idades consideráveis. “Ontem foi um deus-nos-acuda. Este telefone tocou no mínimo cem vezes. Até pessoas de São Luís, de Fortaleza e de outras cidades ligam a dizer que estão tristes. Esta loja me deu uma plêiade de amigos.”
Entre os amigos, perdeu a conta dos colecionadores. “São aqueles homens que deixam as mulheres nervosas. Quantas vezes não ouvi a esposa de algum dizer: ‘Tire isto tudo daqui. Este palerma já põe livros no banheiro’. O colecionador não tem medida. Ah, é até difícil explicar”, diz, excluindo-se do gênero. “Havia um que era o Dr. Vaz, mais conhecido como vaselina. O homem dizia que era o doutor Antonio Vaz. Um dia, descobri que não era doutor. E depois descobri que nem Vaz ele era”, diverte-se.
Ele jura que, em casa, tem poucos livros. Os que tem são, quase todos, de literatura portuguesa. Fernando Pessoa, Camilo Castelo Branco, Guerra Junqueiro, Eça de Queirós. Nesse instante da conversa, sua mulher, Rita, que o ajuda na Ornabi, revira os olhos. O sinal o obriga a confessar: “Quando eu morava na Aclimação, tinha livros por todo lugar. Mas, quando me mudei, me desfiz de muitos”.
Nos tempos fartos, dos anos 60 ao início dos anos 80, a Ornabi chegou a ter cerca de 400 mil títulos, pelas contas do proprietário. “Por essa altura, esta casa pegava o primeiro andar todo. Era o período áureo. Sabes que eu até imaginei-me o dono da maior livraria do mundo? Sonhava com isso, é verdade. Depois nem cheguei a somar nada, nunca soube também quantos livros teria a maior livraria do mundo.”
Numa reportagem publicada no Diário do Comércio, de Lisboa, o sonho virou letra impressa, num texto intitulado De um sonho do papel a um império do livro. “É um título muito interessante, não?” Decerto, ele não poderia esperar tal destino quando deixou a terra natal, fugido da guerra, uma mão à frente e outra atrás.
Além da mala, trazia um nome na cabeça. “O meu pai, quando deu-me um abraço de despedida, disse: ‘Vê se consegues encontrar por lá um homem chamado Vieira’. Quando cheguei, nem imaginava que São Paulo tinha 2 milhões de habitantes. Achei que fossem pra aí uns 100 mil. Como haveria eu de encontrar o sr. Vieira, de quem sabia o nome e nada mais?”
Segue-se então um enredo que parece inventado. Em 14 de agosto de 1939, ao chegar ao Brasil, saiu andando pela rua Riachuelo, no centro de São Paulo. “Subi essa rua porque havia muita gente. Era o tempo da repartição de águas e andavam por ali muitos funcionários. Estava com a mala na mão, pensando no que iria fazer quando, ao longe, vi uma placa: Livraria Lusitana. Entrei e perguntei: “Vossa Excelência não está precisando de um caixeiro?”
Ao ver o conterrâneo, o dono da Lusitana puxou conversa. Ao saber que o rapaz vinha da cidade de Alboritel, próxima a Fátima, adivinhou: “Alboritel? Só tem lá uma pessoa que teria coragem de mandar um português sair da guerra, o senhor José Oliveira Dias”. Justamente, o pai de Luís. “Estava tudo perfeitamente entregue. Era esse o senhor Vieira. Comecei a trabalhar na livraria dele. Depois da conversa, ele subiu as escadas e disse: ‘Ó, Luísa, prepara a água quente para lavar este português todo sujo’. E cá estou eu.”
Com o sorriso que o bigode torna miúdo, o senhor Luís olha para os livros que lhe deram a primeira oportunidade na nova terra e arrisca uma comparação. “É por isso que eu digo que o livro é muito parecido com uma figura humana. Ele nasce, vive e morre. Alguns têm um destino infeliz: ninguém o lê, alguns o maltratam. Outros têm melhor sorte.”
Na Ornabi, foram todos sortudos: livros e proprietário. “Comprei livros bons, vendi livros para bons leitores e tive uma vida sem grandes percalços”, resume. Os clientes ilustres foram muitos, mas um nome pisca na memória: Delfim Netto. “Morava aqui no Bexiga uma criatura que andava de calças curtas e adorava livros. Comprava dois, três livros, e me dizia: ‘Pago todos no final do mês’. Nunca deixou de vir aqui.”
Por estes dias, os habitués andam pelo belo espaço, repleto de quadros, ilustrações e bustos, com o contentamento do bom negócio e a chateação da perda. Restarão os lugares que, para “seu” Luís, “gostam de ser chamados de sebo e vendem livros como se vendessem tijolos”.

Pai de uma filha, avô de três netos e bisavô de duas crianças, ele tem outros planos, além da viagem, para a aposentadoria. “Quero escrever as minhas memórias. Só não comecei ainda porque sempre dizem que quem escreve está com o pé na cova”, provoca, sabendo que Rita, a segunda mulher, está ouvindo e que não gosta dessas pilhérias.
Antes do fim da entrevista, o livreiro que se acreditou o maior do mundo folheia novamente o volume com os poemas de Camões. Lembra que foram prensados apenas 60 exemplares. Estaria com pena de se desfazer do livro? “Um pouco de pena dá. Mas sou livreiro, tenho sempre a esperança de encontrar outro igual.”
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