Estamos em guerra!

Os interesses populares só podem circular livremente pelos meios de comunicação que lhe pertençam e articulados solidariamente, não pelos meios de comunicação de massa, que pertencem e servem aos interesses tão somente das elites

A maioria da população não tem clareza disso, mas é atingida permanentemente e de um modo extremamente profundo. Sem FAL, AK47, ou outra Kalashnikov, sem obuses, foguetes ou granadas, mas com “atos, palavras e omissões” e muitos shows, com mágicos travestidos de “analistas” fazendo suas interpretações torcidas se sobreporem aos fatos e os escamotearem, ocultando-os. A pirotecnia dos meios de comunicação de massa (emissoras de televisão e rádio, revistas, jornais, portais) constrói “verdades” por cima das verdades, ainda que não tenham qualquer congruência e coerência.

Há muitos anos se diz aos alunos de Jornalismo, principalmente quando se trata da Ética, que duas meias verdades não fazem uma verdade, mas sim uma grande mentira. Também se dizia que o compromisso fundamental do jornalista é com a sociedade e que, por consequência, deveria sempre ouvir os dois lados de qualquer questão. Eu, porém, sempre disse que a verdade dos fatos, em qualquer sociedade, não pode ser reduzida ao cara-coroa de uma moeda, pois até mesmo esta é tridimensional; se tem cara-e-coroa, também tem a borda, e o compromisso ético do jornalista é ir além das facetas visíveis e buscar o que se encontra, ou é escondido, nas bordas.

Infelizmente, muitos “companheirinhos” não aprenderam a lição, ou não quiseram aprender. Pior, submetem-se, como capachos, aos que se arrogam o direito de mandos e desmandos, como donos, na sociedade. Como se todos fôssemos propriedade sua. Direitos na sociedade, sim, os deles.

Direitos humanos, direitos dos trabalhadores, voz do povo, direito à informação correta, acesso livre à informação, acesso à educação pública com qualidade em todos os níveis, acesso à cidade, acesso à habitação digna, acesso à multiplicidade cultural e direito à livre manifestação cultural, direito à identidade e à vida dos povos originários, dos povos forçados à emigração por escravização e das populações tradicionais, direito do povo (dos povos, neste país multiétnico, multicultural e multilinguístico) de ter participação nas decisões e no próprio controle dos governos (e não apenas “ser representado”… por quem, de fato, não o representa)… São coisas que causam incômodo, muito incômodo, como forte crise de urticária, nas elites e seus capachos (conscientes) e aderentes. E os meios de comunicação de massa constituem a principal arma para atingir o povo.

Além, claro, das tradicionais carabinas, pistolas, metralhadoras, bombas de efeito moral e gás pimenta. E mesmo diante destes dispositivos de “segurança” (das elites e seus representantes em governos) os garotos e garotas das escolas públicas estaduais de São Paulo estão nos dando belíssimas lições de cidadania, dizendo com todas as letras que a coisa pública é do público, não dos governantes, que currículo se constrói coletivamente e com os verdadeiros interessados em interação (professores, alunos, pais) entre si e em relação com o Estado, não por “iluminados” em seus gabinetes, que a escola se faz com todos, ativamente.

Fazem-me lembrar da delinquência acadêmica bem analisada pelo muito querido Mestre (assim, com maiúscula) Maurício Tragtemberg – a delinquência praticada pelas elites através do Estado, com seus currículos autoritários, e seus braços docentes, com suas teorias e práticas não menos autoritárias e invasivas. E muitos dos nossos professores, que ouviram falar de um tal Paulo Freire, leram alguns trechos de Lourenço Filho (talvez nenhuma obra completa) e, muito provavelmente, não fazem a menor ideia de quem foram Célestin Freinet - e sua escola popular (também chamada “escola moderna” por muitos), com as aulas-passeio, o livro da vida, o jornal e a correspondência além-aldeia – e Moacyr de Góes – e sua “De pé no chão também se aprende a ler”. Muitos babam – literalmente – ouvindo José Pacheco, mas têm arrepios de horror só em imaginar uma escola sem “conselho directivo” e com assembleias escolares de uma comunidade muito viva e ativa. É a Escola da Ponte. Sem teorizações, estes garotos estão a nos ensinar, com sua prática, estas pedagogias. Aprendamos!

Sem teorizações, estes garotos estão a nos ensinar, com sua prática,
estas pedagogias. Aprendamos! Aprendamos também como
este movimento se expandiu e se articula: comunicação.

Aprendamos também como este movimento se expandiu e se articula: comunicação. A sua comunicação, não a dos meios de comunicação de massa e apesar deles. Uma comunicação que usa todos os meios e canais ao alcance, dos mais simples e artesanais aos mais sofisticados aparatos tecnológicos. O cartaz na parede com as instruções para as tarefas do dia e as convocatórias. As fotos e vídeos gravados e transmitidos pelos smartphones “em direto” (como diriam os companheiros de ambos os lados da Ibéria), documentando as truculências do “sistema”, mas também suas próprias práticas e experiências. Os vídeos com os relatos deles próprios. Os muitos jornalistas livres (livres das amarras do patrão e da ideologia dominante, das elites), como canais de voz e testemunho. Pela internet, pelas emissoras comunitárias de caráter popular de todo o País, pelas revistas e jornais dos movimentos sociais populares e sindicais e, eventualmente, por canais dos “grandes meios”.

Estes garotos são donos de sua própria voz e a usam para manifestarem seus desejos, suas vontades, sua luta, sua identidade e se articularem em função de seus interesses e objetivos.

Os interesses populares, das comunidades populares, sua organização, a organização de suas lutas, a manifestação de sua identidade própria, de sua cultura, só podem circular livremente, e ser elemento importante da organização comunitária popular, pelos meios de comunicação que lhe pertençam e articulados solidariamente, com a perspectiva dos interesses e necessidades das camadas populares, não pelos meios de comunicação de massa, que pertencem e servem aos interesses tão somente das elites. A abertura de espaços para reclamação dos buracos da esquina, das dificuldades de atendimento no posto de saúde, das filas aqui e ali, é apenas maquiagem para escamotear os verdadeiros responsáveis pela exploração do povo e desviar o povo das verdadeiras lutas populares.

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António Moura

É sociólogo e escreve no Blog do Galeno Ribeirão a cada 15 dias.