Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

19 de agosto de 2018

Maria José Silveira: "mulheres precisam escrever mais"

Blog do Galeno - 12/07/2018

 
Goiana e radicada em SP, Maria José Silveira, escritora convidada de julho do Clube de Leitura do Galeno dá sua receita para que a história oficial deixe de ser contada só pela ótica masculina. "Escrever mais, pesquisar mais e enfrentar círculo vicioso".
P) A história oficial é contada, em geral, pela ótica masculina, que deixa as mulheres de lado e invisíveis. Como virar esse jogo?

R) Escrevendo mais. Pesquisando mais. Enfrentando mais o círculo vicioso dos homens que acreditam mais na inteligência e capacidade masculina, homens que se acostumaram a pensar que autores homens escrevem melhor e sobre coisas mais importantes, ergo, preferem livros escritos homens. Homens que em geral são os que comandam a mídia e valorizam mais livros escritos pela competência dos homens, ergo, esses escritores são mais divulgados. A inteligência e capacidade femininas se perdem nas sombras desse bosque formado por homens. Foi assim. Tem sido assim. Felizmente, a vida está se mexendo nesse bosque. Mais mulheres estão exigindo dos homens a divisão do trabalho doméstico e cuidado dos filhos. Estão seguindo para a universidade. Estão se capacitando mais. Estão compartilhando com os homens as despesas da família. Estão se expondo mais. É um processo lento que já deu seu start. Creio que já estamos vendo alguns frutos disso. Poucos, mas já mostrando a sua cara. Sou bem otimista quanto a isso e creio que esse movimento não tem volta.

P) Você faz pesquisas históricas para compor as personagens da sua ficção?

R) Quando necessário, faço muita pesquisa. Vim da área acadêmica, da Antropologia, sobretudo, e sempre gostei de pesquisar. Juntar uma ponta com a outra. Montar o quebra-cabeça do tema no qual estou focada. A pesquisa é uma das ferramentas de quem escreve. Não a única. A imaginação, a observação e a própria vivência são, com certeza, as principais. Mas se não for pela pesquisa, será preciso que o escritor se debruce sobre si mesmo, sua própria história e vivências. O que já deu e dá ótimos romances, sem dúvida. A imaginação pode dar um baile de gala a partir de uma frase, um cheiro, uma música, qualquer coisa. Mas a pesquisa é uma ferramenta à disposição da imaginação. Eu gosto de utilizá-la.
P) Um livro seu, A mãe da mãe da sua mãe e suas filhas, embora esgotado e fora do mercado no Brasil, recebe até hoje críticas favoráveis na imprensa estrangeira. O que acontece com nosso mercado editorial?

R) O mundo do livro é um mistério, mas nosso mercado editorial parece querer torná-lo ainda mais misterioso. E uma das coisas que ele gosta de fazer é decretar precocemente a morte de um livro. Nem falo desse meu romance “A mãe da mãe...”, que teve quatro reimpressões e uma venda significativa. Mas a verdade do que acontece até uma criança sabe: a distribuição dos livros no Brasil é extremamente precária, e ainda não apareceu alguém capaz de resolver esse problema. Quando aparecer, essas mortes precoces deixarão de existir. E nem vou falar aqui da questão da educação que, também todos sabem, é um dos nossos vários “calcanhares de Aquiles”. O Brasil parece ser grande demais para ter só dois.

P) Como foi para uma goiana tão assumidamente da gema dar conta de tamanha fragmentação e diversidade e tantos personagens multifacetados que é a cidade de São Paulo, personagem e senhora do seu  livro Paulicéia de Mil Dentes?

R) Antes você me perguntou sobre a pesquisa necessária para compor um livro de ficção. Vou lhe dizer que Paulicéia de Mil Dentesfoi um romance que não precisou de pesquisa. Mas sim da observação cotidiana, vivência da cidade, atenção a suas contradições, belezas e feiuras. Embora seja goiana, já passei mais anos da minha vida em São Paulo do que em Goiás. Amo essa cidade, apesar de todos os seus conflitos e cruezas. Sempre quis escrever sobre ela e o fascínio que ela desperta. Talvez por isso coloquei versos de seus poetas nas minhas aberturas de capítulos. E fiquei feliz quando uma estudiosa, ao escrever sobre esse livro, o chamou de “romance de multidão”. Creio que é o epíteto perfeito para um romance sobre nossa megalópole.
 

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