Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

17 de julho de 2018

José Orenstein: "É preciso ensinar a ler uma notícia"

HENRIQUE ARAÚJO, O Povo, 17/06/2018

Historiador e jornalista, José Orenstein deixou as grandes redações pouco mais de dois anos atrás, quando foi convidado a assumir o projeto Nexo Jornal, uma plataforma de jornalismo digital. Na prática, ele trocou uma pergunta por outra. 

Saiu “o quê” da notícia apurada sob a pressão do fechamento das edições de papel. Entrou o “como” da nova ferramenta, mais dedicada a mostrar o contorno dos fatos e seu contexto e menos em noticiá-los antes de todos os outros. 

Daí veio a preocupação com a “alfabetização midiática”, expressão que Orenstein usa para se referir ao déficit de compreensão dos leitores em relação às notícias que circulam nos meios digitais. Para ele, estava claro que o jornalismo precisaria ensinar essa audiência a ler a informação e não apenas a consumi-la, o que acaba redundando em fenômenos como os das “fake news”.

Um dos convidados do Festival Vida&Arte (de 21 a 24 de junho, no Centro de Eventos), Orenstein conversou com O POVO sobre ameaça das informações falsas ao processo eleitoral. Confira os principais trechos da entrevista.  O POVO - Como é que o Nexo Jornal se prepara cobrir uma eleição como esta de 2018, com características que desafiam a imprensa de modo geral?

José Orenstein – É um momento decisivo pro tipo de jornalismo que a gente faz, o digital. A gente vê como uma oportunidade de consolidar os princípios que estão na base de quando a gente fundou há dois anos e meio. Que são equilíbrio, rigor e transparência. Achamos que é possível fazer um jornalismo profissional, com as perguntas certas, e trazer um conteúdo que seja envolvente e que reconecte o jornalismo com o seu leitor. As eleições vão ser essa chance de a gente reafirmar esse modelo editorial. 

Muita gente está falando agora sobre a ameaça das “fake news” que se propagam nas redes sociais. Então o Nexo faz o exato oposto disso. Publicamos informação que dá contexto, que explica o que está em jogo com clareza, equilíbrio e rigor.

OP – Há risco concreto de que a disseminação de notícias falsas comprometa as eleições e o processo democrático?

Orenstein – É um problema evidente, e a questão agora é a escala e o impacto real que isso pode ter. Notícia falsa sempre existiu. A preocupação hoje é a dimensão e a velocidade com que esse tipo de informação se dissemina. É um desafio para a democracia, mas isso só reforça o papel do jornalismo profissional para ser uma voz atuante nas conversas que estão nas redes na internet.

OP – Como o jornalismo se prepara para essa guerra? Que tipo de instrumento precisa ser aperfeiçoado?

Orenstein – Acho que é apostar mais nos princípios básicos do jornalismo. Mas, pensando numa coisa mais objetiva, tem algo importante que precisa ser feito: a alfabetização midiática das pessoas. Muitos jovens leitores começam a se formar exclusivamente pela internet, às vezes pela home do Youtube. Ou pelo Facebook, Snapchat e WhatsApp. E é importante trabalhar essa ideia de ensinar as pessoas, especialmente os jovens, a ler uma notícia, a identificar, por exemplo, o que é opinião e o que é informação. Coisas básicas mesmo. Como garantir que são pessoas por trás das opiniões e comentários e não robôs. Então essa ideia da alfabetização midiática, de trazer pra perto e ensinar como é feito o jornalismo – daí a ideia da transparência –, permite ao leitor entender exatamente como você chegou naquela notícia. Que ele possa fazer uma espécie de apuração reversa. Informar os links das fontes, deixando muito claro de onde você tirou cada coisa, documentos oficiais. Isso é algo que fazemos bastante no Nexo. Por exemplo, quando a gente cita documento público ou uma lei, a gente cita de onde ela veio etc. Esse tipo de postura ajuda a gente a ter um ambiente jornalístico muito mais saudável. Isso é algo que a gente procura fazer no dia a dia e que se relaciona com a transparência. Outro exemplo: na correção dos erros. Quando os leitores apontam algum erro, a gente tem uma conversa muito próxima nas redes sociais ou por email. Todas as mensagens são lidas e respondidas quando há o apontamento de algum erro. Temos uma equipe que está atenta a isso.

OP – Nós estamos muito distantes ainda de um estágio mais maduro de alfabetização midiática?

Orenstein – Acho que sim. Mas isso é um problema bem anterior no Brasil. É de formação de leitores. Se a gente for pensar bem, é um buraco que está na educação básica, média e fundamental de criar leitores neste País. Acho que ainda estamos muito distantes do ideal.

É um esforço muito grande que precisa ser feito na educação.

OP - Essa deficiência se agrava no ambiente virtual?

Orenstein - Muitas vezes, sim. No ambiente virtual, você tem disseminação de boatos e confusão proposital, manipulação de informações. Se você oferece isso para uma pessoa que tem deficiências na sua formação como leitora, de saber ler criticamente um texto, é complicado.

OP – O jornalismo que vocês fazem no meio digital não está preocupado com o furo de reportagem, que na internet é ainda mais efêmero do que no impresso hoje em dia. Acha que a tendência é de se tornar também uma instância de verificação ou de checagem da realidade?

Orenstein – Acho que não. A gente não é uma agência de fact-checking nem de verificação. O furo de reportagem não está dentro do modelo que a gente adotou, de fato, mas temos essa preocupação de ser esse porto seguro pro leitor. De uma forma que ele possa entender o que está em jogo por trás dessa notícia, quais os interesses envolvidos, qual o impacto disso na vida dele, na vida política do País, da sua comunidade. Nossas preocupações são o contexto e a explicação das notícias.

OP – Você acha que é mais contexto na informação é uma demanda forte dos leitores hoje?

Orenstein – Acho que sim. No meio da cacofonia do mundo digital é sempre bom ter esse distanciamento. É algo em que os leitores estão interessados, e o sucesso do Nexo em pouco tempo demonstra isso, que há um público que quer, sim, esse tipo de informação. E também muitas vezes a gente vê nos jornais um tipo de cobertura que acaba falando mais pras fontes ou pros pares jornalistas, com um texto que entra muito no jargão. A gente busca evitar isso ao dar contexto, ao dar esse passo atrás a fim de trazer a leitura mais pra perto. Isso passa também pela linguagem, pelas formas de contar uma história, que podem ser tanto em texto, um vídeo, um podcast, um gráfico. Depende da forma mais adequada pra contar. Essa é uma das coisas que a gente faz no Nexo: pensar uma história e o melhor jeito de contá-la.

OP – Uma das marcas do Nexo é a transversalidade. Isso se estende também à escolha dos profissionais que trabalham com vocês?

Orenstein – O Nexo tem essa característica mesmo, de tentar ser um jornal plural, com gente de várias formações. E acho que isso deixa o produto final do nosso jornalismo mais rico e mais diverso. É a nossa proposta. 

OP – Vou fazer uma pergunta que você já deve ter ouvido muitas vezes. Qual o futuro do jornal impresso?

Orenstein – Eu sou um ávido consumidor de jornal impresso. Mas sou uma exceção. Acho que o futuro inevitavelmente do jornalismo tende a ser digital. Não vejo outro caminho. Agora, a tecnologia do impresso, nesse sentido de organização e hierarquização que uma página de papel obriga, é um achado. É um avanço do jornalismo para o qual a gente ainda está tentando achar um paralelo no meio digital. Então acho que o jornalismo impresso, no médio prazo, ainda tem uma importância e uma relevância centrais.  

 

Formação

DE ACORDO COM José Orenstein, as novas gerações formam-se leitores em contato sobretudo com as redes sociais.  

  Nexo 

PLATAFORMA digital, dedica-se a contar historias orientando-se por princípios como transparência e didatismo. 

Fake news 

ANTÍDOTO contra as noticias falsas, segundo o editor do Nexo, é apostar nos fundamentos do jornalismo: rigor e apuração.  

 

BOATOS À PROVA NA INTERNET 

Segundo o editor do Nexo, “no ambiente virtual, você tem disseminação de boatos e confusão proposital”, manipulação de informações 

 

SERVIÇO  Festival Vida&Arte Onde: Centro de Eventos do Ceará (Av. Washington Soares, 999) Quando: 21 a 24 de junho Quanto: R$ 20 (inteira); R$ 10 (meia) — válido para toda a programação do dia no evento (o acesso às atrações está sujeito à lotação dos espaços onde elas se apresentarão) Ingressos à venda no site www.festivalvidaearte.com.br, na portaria do Jornal O POVO (Av. Aguanambi, 282 — José Bonifácio) e nas lojas JEF dos shoppings RioMar e Iguatemi Programação completa: www.festivalvidaearte.com.br 

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