Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

16 de agosto de 2018

Jovem que se alfabetizou aos 12 anos abriu primeira sala de leitura em favela de Caxias

extra.globo.com 08/04/2018

A cada 15 minutos, um avião voa baixinho por cima da favela Parque das Missões, em Duque de Caxias, para pousar no Aeroporto Internacional Tom Jobim, a 2,5 km dali. Nesses momentos, não é mais possível ouvir os passarinhos cantando. Também não dá mais para os leitores da comunidade manterem a concentração. E eles não são poucos. É que há dez anos o projeto social Apadrinhe um Sorriso promove a cidadania desses moradores através da cultura. A responsável por isso é Fabiana Silva, de 37 anos, a segunda personagem da série Os Extraordinários, que, para comemorar as duas décadas do jornal EXTRA, contará, sempre aos domingos, uma de 20 histórias de pessoas que transformam a vida de outras.

— O Apadrinhe um Sorriso começou no quintal. E hoje duas das nossas crianças passaram no concurso para o Colégio Pedro II. A gente entendeu que consegue causar impacto — diz Fabiana, que dá uma pausa na entrevista para o avião passar sem atrapalhar a gravação.

O Parque das Missões é uma comunidade composta por casas de alvenaria até a área conhecida como Colômbia, a mais carente da favela. Lá, o chão é batido e as casas são, majoritariamente, feitas de madeira. Ela é margeada pelo poluído Rio Pavuna, que desemboca na Baía de Guanabara, e por um valão, área de lazer das crianças do local.

É lá que Fabiana mora e onde construiu a primeira sala de leitura da favela. O Apadrinhe um Sorriso nasceu em 2008 com ações pontuais realizadas por Fabiana para a arrecadação de kits com presentes em datas como Natal. Lá, ela pedia aos seus colegas da Faculdade de Pedagogia da Uerj para que cada um comprasse um livro e uma roupa para as crianças do Parque das Missões.

— Eu achei que nós precisávamos fazer mais e passamos a realizar saraus no quintal dos voluntários para incentivar a leitura. Há quase quatro anos, eu comprei com o meu 13º salário dois barracos que havia aqui e transformamos em uma sede muito capenga — lembra Fabiana. — Mas faltava segurança. Aí, conversei com os responsáveis, e cada um ajudou do jeito que podia para fazer um espaço mais aconchegante.

Agora, a construção foi abaixo. Mas por um bom motivo. O grupo fez uma vaquinha virtual para construir uma sede melhor. E conseguiu arrecadar R$ 13,6 mil. A primeira parte do espaço será inaugurada este mês.

Fabiana já esteve fora da escola. Quando tinha 8 anos, precisou largar os estudos para cuidar de três irmãos enquanto a mãe se desdosbrava no tratamento de um filho com leucemia.

— Mas eu nunca larguei da leitura. Minha mãe me incentivou muito — conta Fabiana, que voltou para a escola quatro anos depois e acabou se formando pedagoga na Uerj. — Quando entrei na faculdade, tive que parar de trabalhar como camelô. Aí, minha mãe voltou a estudar para eu poder usar o RioCard dela.

O destino, no entanto, não foi o mesmo para os quatro irmãos. Um foi preso e outro, morto, aos 16 anos, pela polícia.

— Mas a minha história só foi possível pelo incentivo de várias outras — explica Fabiana.

‘A gente modifica a estrutura’

— A favela em que a gente vive tem uma praça que não é praça, é um terreno baldio, em que o posto de saúde funciona dentro de dois contêineres. É nessa favela que a gente realiza o nosso projeto. É uma comunidade esquecida pelo poder público, mas lembrada em época de eleições. Por isso, ter um projeto desse é importante. Porque, além de salvar vidas, quando a gente envolve o morador que não acredita que dá para transformar o local onde ele vive, a gente modifica a estrutura da favela — diz.


Mais Histórias de gente que lê

Todas as notícias sobre "Histórias de gente que lê"

Receba por e-mail


Cadastre-se!

Livrômetro

Relógio da leitura no Brasil

490.320.000

Livros lidos em 227 dias de 2018 no país

Publicidade