Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

19 de agosto de 2017

Festivais literários servem mesmo para quê(m)?

Julio Silveira

Acabo de voltar da Flip e estou cambaleante, como se ainda precisasse me equilibrar pelas pedras do calçamento (e desengonçado pelo álcool). Só que o que me sacoleja agora são as ideias, e isso é novo. Bem, não é exatamente “novo”; é “de novo”. Nos últimos anos já não trazia ideias de lá, andava enfastiado da Flip. As mesmas falas maravilhosas, as mesmas festas catárticas, as mesmas pessoas queridas e os mesmos projetos quixotescos a cada ano, ano após ano. Porém desta vez — a 13ª que lá fui — posso dizer que foi a mais intensa e instigante, além de mais curta (fui no sábado e voltei no domingo).
Há 15 anos a Flip pôs fogo no pavio, misturando festa e literatura. O rastilho correu o país afora acendendo novas feiras. A profusão de eventos — as muitas “FL[+nome da cidade]” — teve consequências igualmente maravilhosas: ampliou e intensificou a troca de ideias ao festejar o livro. Mas trouxe também um problema, pelo menos para os curadores. Como fazer com que seu festival literário, no meio de tantos outros, seja diferente — e faça alguma diferença?
Com todo o amor e respeito aos curadores pregressos da Flip, acho que é consenso que Josélia Aguiar fez diferente e fez diferença. Ao trazer à merecida luz autores e temas negros, em toda sua heterogeneidade, o festival forçou uma discussão que pode tornar a sociedade um pouco menos canalha. Em tempos de dicotomia e “fascibook”, foi redentor ouvir a Diva que saiu da plateia e compartilhou sua história tão brasileiramente doída.
Preciso dizer que a LER Salão Carioca do Livro do ano passado já tinha essa preocupação: mais da metade dos autores que convidamos era, digamos, “não-branca”. Mas lá isso era imperativo: estávamos ao lado do Cais do Valongo. Faço essa ressalva não para puxar-sardinha-para-nossas-brasas, mas para reiterar o que todos sabem (ou deveriam saber): as festas literárias têm que servir ao lugar que lhes abriga. Têm que (tentar) transformar o entorno e enriquecer (ao menos culturalmente) a comunidade, o cidadão. Colaborei com alguns festivais onde isso foi relativamente fácil, porque eu dispunha uma imensa base histórica e cultural e de uma comunidade a ativar: Olinda, Morro da Conceição e Lapa.
Fazer a curadoria do Salão Carioca do Livro em pleno Porto do Rio também foi uma felicidade / facilidade: estava justamente no local onde as ideias desembarcaram e catalizaram a cultura carioca-brasileira (a Pedra do Sal e a Providência de Machado de Assis sendo dois exemplos das redondezas). E, ao contrário do outro porto, o de Paraty, a importância histórica e cultural do Porto do Rio não estava na paisagem, por muitos anos sepultada por aterros e viadutos para só agora reaparecer como ponto focal da cidade.
Outra “serventia” dos festivais literários é a de co-memorar (“lembrar juntos”) e de celebrar (“juntar gente”) e nisso a Flip 2017 também foi diferente, e melhor. A começar pela Festa do Policarpo, na praia, e a transposição do samba da Folha Seca para oitão da Matriz: festas sem paredes, sem barrados. E assim também nos espaços do Sesc e nas tantas casas — Libre Nuvem de Livros, Paratodos, Santa Rita da Cássia, Folha e PublishNews — que abrigaram e fomentaram as conversas.
Da mesa que reuniu curadores de eventos literários na Casa PublishNews, saiu a ideia de formar uma 'federação de eventos literários' com o objetivo de maximizar a força dos festivais | © Julio Vilela
Da mesa que reuniu curadores de eventos literários na Casa PublishNews, saiu a ideia de formar uma 'federação de eventos literários' com o objetivo de maximizar a força dos festivais | © Julio Vilela
Essa foi ainda a Flip que trocou a verba pelo rebolado, buscando soluções (como a Igreja) que mitigassem os cortes do patrocínio. Se os orçamentos minguantes são um problema para todos os festivais literários, talvez uma solução esteja em pensar em conjunto. A ideia de uma “federação de festivais” — um fórum onde produtores, curadores, editoras e secretarias de cultura poderiam coordenar datas e temas e otimizar custos (por exemplo, repartindo o transporte de autores) — foi acalentada em encontro na Casa PublishNews. A união também se prestaria à convênios com festivais, daqui e do exterior, articulando com instâncias do governo e fundações para o intercâmbio de escritores e editoras. Um dos possíveis “confederados”, José Luis Tahan (da Tarrafa Literária de Santos) assim definiu:
O papel dos eventos litera?rios e? este. Olhar sempre para o leitor, sem tirar os olhos de no?s mesmos, os profissionais do livro. […] Uma missa?o que exige tanto esforc?o quanto a diversa?o de ler um livro, no caso de Paraty, onde as ruas de pedras redondas polidas pelo tempo nos obrigam a caminhar com os olhos voltados para o cha?o.
Sigo então assim: um olho nas pedras do caminho; outro nos encontros do futuro, atrás de compor um LER Salão Carioca do Livro 2017 reverente e transformador. Que seja sim mais um festival literário mas que faça diferença àqueles a quem, em última instância, os festivais literários servem: o leitor.

(Publishnews - 02/08/2017)

*

Julio Silveira é editor, escritor e curador. Fundou a Casa da Palavra em 1996, dirigiu a Nova Fronteira/Agir e hoje dedica-se à Ímã Editorial, que investiga a publicação digital e transmídia. Dirige o projeto “NossaLíngua.Doc” que documenta e estimula as conversas mundiais em português, em mídia social, livros e filme. É promotor de festivais de literatura e atual curador do LER, Salão Carioca do Livro.

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