Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

22 de agosto de 2017

Beth Serra: O segredo é botar a mão na massa...

Para a pedagoga Elizabeth Serra, secretária-geral da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e uma referência na questão da leitura, não há solução milagrosa para crianças e jovens lerem mais. É o testemunho, o exemplo e, sobretudo, “botar a mão na massa”.


1- Como você explica esse boom de talentos, nas últimas décadas, na literatura infantil e juvenil brasileira?

R) A literatura infantil e juvenil deu um grande salto na época da ditadura. Parece que os censores não quiseram perder seu tempo com isso. Graças a isso, tivemos, nos anos 1970, a ascensão de grandes nomes, como Ana Maria Machado, Lygia Bojunga, Ruth Rocha, João Carlos Marinho e Ziraldo, entre tantos outros. Eles aproveitaram bem essa brecha e passaram a fazer nos seus livros de literatura infantil e juvenil os questionamentos bem como fazer os enfrentamentos necessários em obras voltadas, aparentemente, para crianças e jovens. E isso eles não podiam, por causa da censura, fazer em sua literatura para adultos. Muitas delas histórias estão aí até hoje e tornaram-se verdadeiros clássicos. É importante notar que todos esses autores – e muitos outros que não mencionei aqui – foram leitores de Monteiro Lobato, um escritor que olhava para a criança com respeito respeitando. Lobato, muito tempo antes do feminismo e com tudo o que então havia e o conservadorismo na sociedade brasileira, teve a ousadia de colocar duas mulheres – a Tia Anastácia e a Dona Benta – no plano central da vida das suas histórias. E mudou profundamente o mundo dos livros no Brasil, que até então só importava a literatura infantil que consumia. Embora a gente ainda esteja muito longe do que queremos e precisamos, devagarzinho estamos chegando lá. Também é preciso dizer que houve no Brasil uma maior democratização do acesso à leitura, embora ainda falte muito, e uma maior presença de muitos professores-leitores. Também existe um grande reduto no Brasil de professores e bibliotecários que, aos poucos, vão transformando essa realidade. Além disso, tudo o que foi plantado nesses últimos anos no país (como é o caso do Proler, o Programa Nacional de Leitura) agora está germinando e dando frutos.


2- Além dos esforços do Estado, que tem obrigação e responsabilidades irrecusáveis nesse tema, você acredita que é o trabalho de formiguinha que existe na ponta – como é o caso dos militantes do Proler, que você mencionou, fazendo trabalhos muitas vezes voluntário – é o que vai conseguir enraizar a leitura nos grotões e nos lugares de acesso mais difícil para a presença do Estado?

R) É isso, sim. Mas não dá para perder a dimensão de que a maioria desses agentes são mesmo os professores na sala de aula e os bibliotecários, pessoas já estabelecidas, que fazem esse tipo de ação de enraizamento das práticas leitores. Mas não há dúvidas de que essas pessoas, sentindo-se mais fortalecidas a partir de ações como as do Proler, que formou uma grande rede nacional de leitura muito tempo antes da chegada da internet, sentiram firmeza e fizeram um grande trabalho, e ainda tem feito mesmo sem apoio oficial. Mas é muito importante que os governos reconheçam e valorizem esse tipo de iniciativa, e sem criar amarras. O Proler, por exemplo, é um excelente exemplo do princípio segundo o qual pequenos grupos que, ouvindo uns as outros, se sentem fortalecidos e forçar para atuar. Isso é muito mais simples do que parece. O grande problema é que ainda não se tem um histórico de valorização da cultura escrita no país.


3- Como você vê o crescimento da leitura entre os jovens de hoje? Como é possível incentivar de forma inteligente as pessoas a entenderam que a leitura é pode ser um hábito muito saudável entre elas?

R) Para tornar os jovens mais interessados em literatura não há outro jeito: é dar testemunho, é dar o exemplo, é ter uma escola que valorize os livros e a leitura. Enquanto não houver uma escola que leve os alunos às bibliotecas e famílias que tenham condições de falar sobre livros e literatura em casa, não haverá como mudar isso. É tudo uma questão cultural. Mas, a boa notícia é que há, sim, muitos jovens que estão lendo, atualmente, literatura. E que também leem literatura para jovens. Não há, seguramente, uma fórmula mágica. Precisa mesmo é ter persistência, dar testemunho e exemplos. Se você não tem à sua volta professores que são leitores e que gostem de fazer isso, e escolas que valorizem isso, aí não tem jeito, mesmo. Não existe solução milagrosa. É botar a mão na massa, mesmo... Fazer, por exemplo, como o Itaú Cultural está fazendo, ao criar campanhas como a que incentiva que se leia para uma criança. Mas, definitivamente, a falta de valorização das bibliotecas que existe não ajuda nem um pouco nessa tarefa...


4- A chegada do livro à era digital vai ser bom ou ruim para a leitura?

R) Não posso prever o que vai acontecer, mas posso dizer, com segurança, que não importa muito o suporte. Aliás é o que menos importa. A questão importante, no caso, é a necessidade do fortalecimento da presença da literatura na vida da sociedade brasileira. Se, no futuro, estaremos lendo mais de um jeito ou de outro, isso realmente não importa. Se é que eu posso dar algum conselheiro aos professores e bibliotecários, eu diria para que foquem bem na leitura entre seus alunos, e que não se preocupem com o suporte. O desafio para o educador é ele conseguir tornar mais presente a cultura escrita entre os seus alunos. E não só lendo, mas também escrevendo, para que eles possam se expressar pela escrita, sejam seus sentimentos, pensamentos ou sua imaginação. Com relação ao menos aos livros infantis, como avó eu ouso dizer que os livros impressos permanecerão por muito e muito tempo. Mas é o gesto de compartilhar esse momento a leitura, como eu faço com os meus netos, o mais importante de tudo.

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