Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

20 de fevereiro de 2017

Literatura nas escolas

Raquel Naveira

Deparamo-nos com uma notícia alarmante, que tocou fundo na nossa vocação, formação profissional e humanística, abalando o paradigma de uma vida dedicada ao magistério das Letras: retiraram a disciplina “Literatura” do currículo das escolas de Ensino Médio (das escolas estaduais do Mato Grosso do Sul).
Como assim? A Literatura, produto da imaginação, forma de arte, a poderosa arte da palavra, foi banida das salas de aula? Perdeu seu prestígio histórico e cultural? Os gêneros literários, os autores, os contextos, os estilos de época, os livros que marcaram o seu tempo evaporaram? Não faz mais sentido para a contemporaneidade o desenvolvimento da ficção, o resultado da intuição de cada escritor através dos tempos? O dom da expressão passou a ser apenas retórico, pretexto para o ensino gramatical? Não interessa mais à própria substância da alma e da vida em geral?
Procurei acalmar a indignação, lembrando que “Língua Portuguesa” englobaria tudo: gramática e literatura. Afinal, “litterator” e “gramatikós” eram a mesma coisa: professores que ensinavam a ler e a escrever. “Littera” e “gramma” significam “letra”, pura e simplesmente. Leitura e escrita. Seria a volta do literato como alguém que usa corretamente a língua, expõe conhecimentos teóricos sobre Literatura, interpreta textos e utiliza a Poesia como ferramenta para a fruição da beleza?
Esse modelo é interessante na fase de formação do leitor, no primeiro grau, no ensino fundamental. Mas no Ensino Médio, com maior amadurecimento e reflexão, é necessário um estudo sistemático da Literatura, numa linha cronológica, com o apoio interdisciplinar do estudo da História, possibilitando uma visão de mundo e de acompanhamento mais complexo do pensamento estético.
O professor de hoje, muitas vezes especialista em determinada área (Literatura, Linguística, Redação e Interpretação de Textos, Filologia, Gramática...), estaria preparado para oferecer aos seus alunos, em menor carga horária, simultaneamente, noções de todas essas nuances e assuntos, com didática, verdade, paixão, sensibilidade, domínio de conteúdos e conhecimentos?
Diante de uma medida como essa, dum corte como esse, como ficará a motivação do profissional de Letras? Houve debate, orientação, cursos de capacitação, criação de estratégias para essa tarefa?
O consolo é que sempre haverá professores que compreendem que a literatura vislumbra para o leitor a existência de uma vida mais livre, bela e intensa. Professores que transmitem generosamente aos seus alunos o amor pela língua portuguesa e pela literatura. Que acreditam na literatura como remédio e compensação numa realidade cada vez mais brutal. Haverá educadores que aceitarão desafios no meio do caos. Por outro lado, haverá sempre alunos com o dom criador, que deveria ser desenvolvido, aperfeiçoado, melhorado, através da oportunidade de boas aulas de Literatura. O consolo continua o mesmo: o da resistência. Mas a notícia de que a disciplina Literatura não possui mais a sua ementa própria, o seu status de ciência, no lugar em que ela mais deveria ser valorizada, choca e aterroriza a mente de escritores e professores apaixonados pelo seu ofício.

*

Raquel Naveira é escritora e formada em Direito e Letras pela FUCMT (atual Universidade Católica Dom Bosco), onde exerce o magistério (Literatura Portuguesa e Literatura Latina). É mestre em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo, e doutoranda em Literatura Portuguesa na USP. É da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras. Ela apresenta o programa literário Prosa e Verso, no canal universitário (canal 14, da NET).

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