Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

20 de outubro de 2017

Sem biblioteca-parque, coral com população de rua perde seu refúgio

Bolívar Torres - O Globo - 06/02/2017

RIO — Todos os dias, Vera Lúcia Reis, 48 anos, acordava em alguma esquina na área do Castelo e ia andando até a Biblioteca Parque Estadual, na Avenida Presidente Vargas. Até seu fechamento, em dezembro do ano passado, a unidade do Centro vinha sendo um descanso do ambiente agressivo das ruas, onde ela mora há seis meses. Lá, trocava a falta de perspectiva profissional por aulas de inglês, informática e teatro, além de ter acesso a internet e livros. Mas foi sua participação no coral Uma Só Voz, projeto que visa o desenvolvimento das artes para a população de rua, que a ajudou a de fato espantar a dependência química.

— Quando entrei no coral tinha recém ido morar na rua e estava pirando — conta Vera. — Entrava dia e saía dia, o coral foi me acalmando. Na rua, voltei a beber e a me drogar, mas o coral funcionou como uma válvula de escape. E não só o coral, mas atividades da biblioteca como um todo. Enquanto você está lá não fica na rua pensando besteira. Nem fica perto de pessoas te convidando a fazer coisas que não são lícitas. Só quem frequentava sempre, como nós, sabe quantificar o fechamento da Biblioteca Parque... No Centro, não tem outro lugar como esse.

Sem reabrir desde o recesso do final do ano passado, a estrutura da Biblioteca Parque Estadual é uma ausência dolorosa para muitos de seus frequentadores em situação de rua. Por sua localização central, a unidade da Presidente Vargas tinha um público ainda mais diversificado do que as de Manguinhos, Rocinha e Niterói (a única das quatro que ainda permanece aberta). Circulavam por lá doutores e concurseiros, mas também camelôs, estudantes das redes pública e privada e aposentados. Talvez pelo ambiente plural, as pessoas em situação de rua consideravam o lugar mais acolhedor do que outros centros culturais.

— Nunca fomos um espaço assistencialista, mas acabamos nos tornando referência de muitas pessoas em situação de rua e uma espécie de elo entre eles e suas possibilidades. Penso que o maior legado é o pertencimento à cidade, como, a partir dessa troca com a biblioteca, eles se reconhecem, enxergam novas possibilidades — diz Fábio Moraes, que trabalhou como mediador social na Biblioteca Parque até o seu fechamento. — Lá eles eram reconhecidos como indivíduos, pelos seus nomes, carteirinha feita com foto, substituindo o comprovante de residência por uma ficha social, que por suas perguntas já quebravam o gelo inicial. Isso é raro em espaços públicos e centros culturais, normalmente tão segregadores.

Mesmo com a biblioteca fechada, o coral continua suas atividades. Nas últimas semanas, eles se apresentaram num evento no Parque Olímpico e fizeram ensaios na Catedral Metropolitana. Nas apresentações, são aplaudidos por curiosos, recebem beijos e abraços e são requisitados para selfies com turistas. Sem a estrutura da biblioteca para as aulas, porém, fica a incerteza sobre o futuro.

— A dor da gente foi perder a estrutura da biblioteca, onde éramos recebidos como se estivéssemos em casa. A gente não tem para onde ir, já que não sabe se vai poder ficar na Catedral. Estamos sem casa — diz Rico Vasconcellos, diretor dos corais do Uma Só Voz.

A relação com a música ajuda muitas pessoas em situação de rua a reinventar a própria imagem, acredita ele.

— A pessoa vive invisível para a sociedade, e ao cantar atrai os olhares e percebe que pode fazer algo diferente — diz. — Cantando eles trabalham o sentimento, liberam as suas emoções. E tem todo o efeito positivo na dependência química e nas doenças mentais.

O projeto acolhe diversos músicos, que sonham em conseguir um novo rumo profissional. É o caso do percussionista José Geraldo do Santos Mattos, 54 anos, que mora em um abrigo em Santa Cruz. Filho de Nelson Sargento, ele é nascido e criado no Morro da Mangueira. Para pesquisar ciência e língua portuguesa na biblioteca, pegava o trem e descia na Central do Brasil. Com o coral, participou de uma peça musical sobre Charlie Chaplin. Seu objetivo agora é conseguir um trabalho, “independente do que seja”.

— A biblioteca abriu um espaço muito importante para a população de rua que ficava ali na Central do Brasil e no Campo de Santana — explica Mattos. — O fechamento deixou essas pessoas sem atividade nenhuma. Ficaram dispersas e ociosas, andando por aí, pelo Centro... Como moro em abrigo, já tinha acesso a livros e cultura, mas quem vive na rua não tem nada disso.

No início de dezembro, cerca de 300 frequentadores fizeram uma manifestação na Presidente Vargas, “abraçando” a Biblioteca Parque Estadual para protestar pelo seu fechamento. Integrante do coral, Alessandra da Silva, 51 anos, estava lá. Vivendo em situação de rua, ela não perdeu a esperança de ver o espaço reabrir:

— A gente não tem muita opção, vai procurar um emprego e não consegue, vai procurar um curso e não tem vaga, então fica rondando por aí, só aprendendo o que não presta — lamenta. — Lá na biblioteca a gente estava aprendendo, fazia um curso de teatro, usava o computador, e não ficava com a cabeça em branco, pensando em procurar drogas.

Mais Clipping do livro e leitura

Todas as notícias sobre "Clipping do livro e leitura"

Receba por e-mail


Cadastre-se!

Livrômetro

Relógio da leitura no Brasil

630.720.000

Livros lidos em 292 dias de 2017 no país