Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

20 de outubro de 2017

A biblioteca é um bem penhorável?

Volnei Canônica

Estava em Cuenca, no Equador, quando acordei com a notícia no site da Rádio Gaúcha Grupo RBS anunciando que a Universidade de Caxias do Sul (UCS), em minha cidade natal, havia penhorado a sua biblioteca como garantia de dívidas ligadas a processo de filantropia.
Ainda meio sonolento, quase não acreditei no que lia, mas, de pronto, dois pensamentos me ocorreram: como podemos mensurar o conhecimento para penhorá-lo? E como uma universidade poderia se desfazer de sua biblioteca?
Conforme a matéria, a UCS penhorou o acervo de 1 milhão de livros das 12 bibliotecas avaliado, pela própria instituição, em R$ 130 milhões.
A UCS é a maior universidade de Caxias do Sul e região da Serra Gaúcha, que em 2017 completa 50 anos de atividade, com quase 100 mil alunos graduados. Quando uma universidade penhora as suas bibliotecas, isso significa que elas valem muito ou que se pode prescindir delas, que são descartáveis?
Senti uma profunda tristeza em ver que mais uma vez o conhecimento e a leitura podem ser tratados apenas como valor de mercadoria. Com certeza houve um estudo do acervo e do seu valor no mercado. Mas como avaliar o valor institucional, de fruição e de formação de uma biblioteca universitária? Quantas pesquisas e estudos foram realizados entre as prateleiras dessas bibliotecas? Quantos engenheiros, médicos, jornalistas, pedagogos se utilizaram deste centro de conhecimento e informação para desenvolver suas teses e sua formação?
Eu mesmo, que fui estudante de Comunicação Social e de Literatura, recorri muito ao seu acervo. A biblioteca foi e continua sendo fundamental na minha formação!
Para o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas do Governo Federal, as bibliotecas universitárias, “tem por objetivo apoiar as atividades de ensino, pesquisa e extensão por meio de seu acervo e dos seus serviços. Atende alunos, professores, pesquisadores e comunidade acadêmica em geral. É vinculada a uma unidade de ensino superior, podendo ser uma instituição pública ou privada. A Biblioteca Universitária dá continuidade ao trabalho iniciado pela Biblioteca Escolar”.
Então, sigo me questionando, como a UCS pode penhorar suas bibliotecas? Caso a universidade perca o processo de dívida sobre filantropia, os alunos dos mais de 100 cursos ficarão sem ter onde realizar as suas pesquisas e estudos complementares?
Segundo os dados da pesquisa realizada pelo Instituto Paulo Montenegro e a ONG Ação Educativa, em parceria com o Ibope, sobre o Indicador de Alfabetismo Funcional - INAF, revelam que somente 22% da população que chegou ou concluiu o curso superior em uma universidade está nível pleno de alfabetismo. Entre os outros alunos, 42% se encontram no nível intermediário e 32% no nível elementar. Esse é o panorama dos cidadãos brasileiros que ocupam e ocuparão diferentes posições / funções na sociedade, incluindo os de gestores públicos que não conseguem entender o valor deste equipamento democrático. Um equipamento que pode receber os estudantes de instituições públicas ou privadas. Pode receber o filho do médico ou o filho da cozinheira. Na biblioteca não há classe social. A única classificação que se permite em uma biblioteca é a organização por área de conhecimento. Mesmo assim, essa sistematização nunca deve ser muito estanque.
A cada dia tenho despertado com notícias que corroboram com a ideia de que a biblioteca é descartável! Como notícias mostrando o descaso de instituições públicas, privadas e governos, independentes de partidos políticos, sobre estes equipamentos que contribuem para o desenvolvimento de uma sociedade que questiona, que pensa, que participa, que argumenta.
Se uma biblioteca universitária colabora para colocar bons profissionais no mercado de trabalho com capacidade de criar, criticar e transformar, o que acontece nas universidades que não tem bibliotecas ou estão com suas bibliotecas em mal estado de conservação, com acervo defasado e profissionais desqualificados?
Conheço a biblioteca da UCS e sei que ela está em bom estado de uso, com bons equipamentos, acervo atualizado e bons profissionais. Isso só faz aumentar a minha preocupação por saber que ela está penhorada e por isso pode deixar de atender a tantos alunos.
A universidade até poderá sanar sua dívida com o Governo Federal, mas é impossível pagar uma dívida contraída com a sociedade por deixar de dar acesso a uma biblioteca.
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(Publishnews - 09/02/2017)

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Volnei Canônica é formado em Comunicação Social – Relações Públicas pela Universidade de Caxias do Sul, com especialização em Literatura Infantil e Juvenil também pela Universidade de Caxias do Sul, e especialização em Literatura, Arte do Pensamento Contemporâneo pela PUC-RJ. É diretor do Centro de Leitura Quindim e ex-diretor de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas, do Ministério da Cultura. Coordenou no Instituto C&A de Desenvolvimento Social o programa Prazer em Ler. Foi assessor na Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Na Secretaria Municipal de Cultura de Caxias do Sul, assessorou a criação do Programa Permanente de Estímulo à Leitura. o Livro Meu. Também foi jurado de vários prêmios literários.

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