Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

29 de março de 2017

‘Quero ser um agente do sonho’, diz escritor português Valter Hugo Mãe

Hagamenon Brito - Correio 24Horas - 11/01/2017

O autor português Valter Hugo Mãe, 45 anos, continua a nos encantar com sua literatura “repleta de poesia e desassombro linguístico” como bem afirma Laurentino Gomes no prefácio de Homens Imprudentemente Poéticos (Biblioteca Azul/ R$ 44,90/ 192 páginas).

Em seu sétimo romance, VHM ambienta a história numa aldeia do Japão para abordar a morte, o suicídio e a cordialidade (mesmo diante da oposição), qualidade mais do que necessária para a coexistência dos homens. A seguir, leia entrevista feita por e-mail.

Em A Desumanização (2013), você ambientou a história na Islândia. Agora, Homens Imprudentemente Poéticos tem sua narrativa no Japão. O que te levou a visitar e a procurar locações fora de Portugal para esses livros? Pretendes prosseguir nessas viagens inspiradoras?
A nossa cultura vira facilmente fórmula. Como se fosse autorização de presunção mais do que obrigação de verificação e rigor. Com o tempo, para um criador, lidar com um mesmo universo pode ser redundante. Sinto como deve sentir-se um artista plástico que experimenta novos materiais. Enquanto escritor, é claro que usarei as palavras, mas a deslocação impõe uma novidade, uma insegurança, que redobra os sentidos e, em alguma maneira, recomeça tudo. Somos novos escritores dentro dos velhos escritores cheios de vícios. Partir de outras culturas, outras estéticas, é uma adopção do perigo enquanto amigo da arte. O perigo é amigo do autor. O conforto a gente deixa na cidadania. Para a arte a gente usa outra coisa.

O que veio primeiro, no caso do novo livro, o conhecimento da Floresta dos Suicidas, no Japão, ou a ideia de escrever sobre a morte (já presente em outros livros teus, aliás) e o suicídio, atos com os quais nós ocidentais, com nossa educação e culpa cristãs, nos relacionamos de forma bem diferente dos japoneses?
O livro foi uma ideia anterior ao meu conhecimento da Floresta dos Suicidas. Aliás, visitei a floresta apenas na segunda viagem que fiz ao Japão. Na primeira, quis saber, sobretudo, de templos, jardins e foi imperioso observar os gestos das pessoas. As vénias, os olhos no chão, os braços pendidos, o cerimonioso de cada instante, isso foi o fundamental. A questão da morte, que me obstina, acontece no livro como inevitabilidade. Não poderia ignorar a questão. O modo como o japonês categoriza a morte, desde logo usando vocábulos distintos para um sem número de rituais de suicídio, é sinal de uma relação com o assunto muito distinta da ocidental. Quis estudar um pouco isso. Sem fazer antropologia, apenas criando a convicção de que morrer pode ser um gesto de completude e não de desespero. Julgo ser valiosa essa maturação. Valiosa e bela.

Existe grande humanismo, compaixão, nos teus personagens literários. Você é otimista em relação aos homens. No entanto, os protagonistas de Homens Imprudentemente Poéticos, o artesão Itaro e o oleiro Saburo, não são amigos. Mais que isso: não se gostam, mas têm que conviver na aldeia, têm que ser cordiais. É uma mensagem para a convivência entre as diferenças, de modo geral, na sociedade atual?
Sim. A grande tese do livro é a educação do exercício de oposição. Uma aprendizagem da discordância e da incapacidade para a amizade. Não vamos nunca ser iguais, não é possível que estejamos sempre de acordo e não é possível a unanimidade em quase todas as situações da vida. Aquilo que precisamos alcançar passa por uma cordialidade aplicada mesmo à oposição. Sermos contrários às ideias ou à sensibilidade de alguém não deve, não pode, destituir-nos ou destituir o outro de dignidade. A boa fé é uma urgência. É a maior urgência da contemporaneidade.

Em Nu Com a Minha Música (1981), Caetano Veloso canta que “coragem grande é poder dizer sim”. Você parece concordar com ele ao escrever um romance em que não existe a palavra “não” em hora alguma. Foi uma tarefa difícil na narrativa?
Começou por ser meio desafiador, porque precisava de prestar atenção, como se a natureza do discurso fosse viciada por uma forma que lhe estava proibida. Em algum tempo mudou. Passei a pensar sem a palavra não. O texto era já uma forma diversa, sem atrito, sem hesitação. Aconteceu que me inibia de escrever não, inclusive nos emails que enviei, nas mensagens telefónicas e até quando deixava algum apontamento no Facebook. Subitamente, fiquei meio alérgico à palavra. Precisei descer do livro para voltar a certa normalidade. Para mim foi importante essa questão formal. Ela sublinha uma cordialidade japonesa que evita empenhadamente a recusa absoluta. É um elogio a uma conquista de gentileza que o linguajar japonês conseguiu. Admiro muito isso.

Por falar em Caetano, ele escreveu um ótimo prefácio na nova edição brasileira de a máquina de fazer espanhóis, falando com sagacidade até da situação política nacional atual. Qual a importância do compositor baiano em tua formação cultural pop?
Caetano é um cantor que tantas vezes experimentou a perfeição. A voz mais perfeita, as composições, os seus inteligentes poemas, tudo nele se levanta da pop mais comum e se torna bandeira qualificada de um tempo, de um povo. Desde sempre que Caetano, como Chico ou Bethânia, Elza Soares ou Cartola, Gil ou Ney e alguns outros, significa o melhor do Brasil. Aquilo que nenhuma outra cultura do mundo soube fazer, aquilo maravilhoso que apenas o povo brasileiro fez. Quando universalmente se pensa no esplendor do Brasil o nome dessas pessoas está implicado. Nenhuma questão ideológica vai apagar ou mudar isso. O melhor Brasil é este Brasil cultural, deslumbrante, criativo, lição de inteligência e infinita beleza.

Em 2016, você comemora 20 anos do primeiro livro, silencioso corpo de fuga, uma obra de poesia. Há alguns anos não lanças um livro de poemas. O que aconteceu com o interesse pela criação poética? É o triunfo da prosa na tua literatura?
A poesia fica contando demasiado acerca da minha vida. É muito declarada e vulnerabiliza-me. Fico com a impressão de que devo escrever poesia mas talvez não precise de publicar. Embora me esteja aproximando da ideia de editar uma nova recolha. Tenho uma colecção de poemas coesos, muito focados num determinado tema, que pedem para ser um livro. Se acreditar que faz sentido, publico em 2017. Tenho muita saudade dos poetas. Continuo a comprar os seus livros, deixei de ser convidado para os seus festivais. Tenho pena disso. Mas a culpa é muito minha. Apenas minha.

Às vezes, penso que já existiu maior delicadeza na relação entre as pessoas e que, como cantava nosso ídolo Renato Russo na Legião, “o mundo anda tão complicado”. Qual a importância da literatura no mundo atual?
A mim importa que os livros façam humanidade. São para que se faça humanidade. Não escreveria se fosse por coisa pouca. Tenho todas as dúvidas do mundo, mas também os sonhos e quero muito ser, nem que quase angustiadamente, um agente do sonho. O papel da literatura pode ser o que quisermos, eu quero que ela seja pela ética. Um modo de ética. É o meu compromisso. Talvez seja minha confissão de esperança.

Um exemplo perturbador de tais complicações são os atentados terroristas islâmicos em capitais europeias como Paris, Bruxelas e Berlim. Como você lida com essa preocupação no continente?
Estamos assustados e também assustados com a hipótese de isso se tornar o novo normal. Corremos o risco de perder a sensibilidade, cansados de atentados e de perigos, celebrando cada dia sem mais memória ou respeito pelos que sofreram, pelos que morreram. Começa a ser difícil que estejamos sequer atentos à constante barbaridade. Perturba-me que a Europa se perca novamente do seu propalado humanismo. O continente das atrocidades históricas, tão recentes inclusive, tinha mesmo de estabelecer uma regra humanista fiável. Infelizmente, a Europa falha e torna-se uma retórica que, numa realidade face ao terrorismo, arrisca a sucumbir de vez por todas.

Em setembro, você visitou Salvador como conferencista do Fronteiras Braskem do Pensamento e postou imagens bonitas e elogiosas nas redes sociais de personagens e de cenas de rua. Quais foram as tuas impressões da capital baiana?
As melhores. Fui recebido com muito carinho e tudo se passou como se Salvador fosse perfeito o cartão-postal para encantar forasteiros. Eu sei que o Brasil passa um tempo difícil, instável e até muito desanimador, mas nos dias em que estive na Bahia vi, sobretudo, gente bonita e simpática, bailando, comendo acarajé, tomando luz, dizendo mal de um frio que, para mim, era sempre calor. Fiquei com muita maravilha da Bahia. Com a certeza de que quero voltar. Quero muito voltar.


Algum plano especial ou projeto em desenvolvimento para a temporada 2017?
Estarei a acompanhar a gravação de um filme, por um director português, com um argumento original da minha autoria. Acompanharei sobretudo por curiosidade, porque creio que haveriam de preferir que eu nem estivesse presente, não sei. Vou procurar não ser muito metido, mas queria tanto que ficasse lindo. Além disso, vou loucamente voltar a gravar umas canções com o Governo, essa banda que criei com amigos músicos e que acontece devagar e por puro prazer. De resto, o silêncio longo para um novo romance, como sempre. Ficar catando tudo quanto me seduza para o livro que quero escrever.

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