Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

23 de abril de 2018

Ler com prazer, todos os dias

Andreia Aparecida Silva Donadon Leal

A média brasileira de leitura, segundo pesquisas, é ler de dois a três livros por ano. É vezo humano consolar-se facilmente ou tomar como base índice tão pífio. É mórbido, mas é mais cômodo e fácil, consolar-se da própria preguiça ou miséria, quando reconhecemos (erroneamente) que há pelo mundo afora, homens mais preguiçosos, mais incultos ou mais miseráveis do que nós, porque leem menos. Certo filósofo grego chegou a dizer isso, procurando consolar-se de seus próprios defeitos, de sua perversidade e de sua preguiça, quando reconhecia, que há no mundo, homens muito mais perversos ou mais preguiçosos do que ele.

A assertiva acima está longe de ser nobre e exemplar. O desejo de melhorar demonstra luta, esforço contínuo, trabalho, vontade de crescer, além de uma boa dose de energia moral.  Seria enriquecedor se nos pautássemos sempre no inverso: que há homens, incrivelmente mais cultos do que nós, que há pessoas que leem mais, porque a leitura abre caminhos, veredas e nos tira da escuridão e do obscurantismo. Há homens e mulheres, incrivelmente mais informados, mais esforçados; menos miseráveis e menos embrutecidos intelectualmente do que nós.

Nivelar-se na média nacional é contentamento de muitos brasileiros, para não dizer comodidade e preguiça. Fico indignada e estarrecida, quando escuto jovens e/ou adultos falarem que leem um ou dois livros por ano e ainda frisam “com mais de 100 páginas”. Alguns porque o colégio exigiu, outros porque está fazendo frio ou chovendo, ou não têm nada mais interessante para fazer. O hábito da leitura ocupa no Brasil, um índice muito ínfimo ainda.

Ler deveria ser vício, paixão avassaladora, prazer dos prazeres, pois é o alimento eficiente e duradouro para a mente, para o enriquecimento intelectual e para a vida. Ler salva vidas do empobrecimento de palavras e expressões, da miséria de ideias e opiniões e do embrutecimento intelectual. Ler não só salva vidas, mas também é um dos maiores prazeres da introspecção. Auxilia na análise e na reflexão da vida; ajuda-nos a opinar e a defender nossos direitos com propriedade e embasamento.

Segundo um dos nomes mais importantes da crítica literária contemporânea e professor das universidades de Yale e de New York, Harold Bloom: “ler é um dos grandes prazeres da solidão. O mais benéfico dos prazeres” (...), ao menos segundo sua experiência. “Ler nos conduz à alteridade, seja à nossa própria ou à de nossos amigos, presentes ou futuros. Literatura de ficção é alteridade e, portanto, alivia a solidão. Lemos não apenas porque, na vida real, jamais conheceremos tantas pessoas como através da leitura, mas também, porque amizades são frágeis, propensas a diminuir em número, a desaparecer, a sucumbir em decorrência da distância, do tempo, das divergências, dos desafetos da vida familiar e amorosa”. Para o professor Bloom, ler por iniciativa própria é desenvolver a capacidade de formar opiniões críticas e chegar a avaliações pessoais, seja por divertimento ou por algum objetivo específico.

Leio todos os dias, compulsivamente, por prazer ou por necessidade de ofício. A leitura faz parte de minha vida na mesma proporção e importância da alimentação e das necessidades fisiológicas.  Defendo-a com “unhas e dentes”. Eu, particularmente, leio para refletir e avaliar, não para acreditar, concordar, refutar, mas para enriquecer minha vida de conhecimentos e de prazer.

É necessário exercitar o cérebro com leituras diárias, preferencialmente de autores que você aprecia e com os quais se identifica. Gosto dos escritos de Olavo Bilac, Raquel de Queiróz, Moacyr Scliar, Marques Rebelo, Marta Medeiros, Manoel Hygino, Machado de Assis, Pompeu de Toledo e outros autores, além de ler gêneros literários diversificados, como poesia, contos e romances.

Ler virou paixão em minha vida. É só começar, para constatar que de fato o livro, a leitura e a literatura são os amigos mais autênticos, eficientes, inseparáveis, fiéis e enriquecedores do mundo; além de nos tirar do obscurantismo intelectual, é companhia constante.  Os benefícios da leitura são ouro, pedra preciosa e luz contínua para o conhecimento e aprimoramento humano. Não importa o motivo e o gênero escolhido, o que vale é ler, ler com prazer, todos os dias.

* Andreia Aparecida Silva Donadon Leal (Deia Leal) é diretora de Projetos do Jornal Aldrava Cultural, governadora do Instituto Brasileiro de Culturas Internacionais-Minas Gerais, presidente-fundadora da ALB-Mariana, mestranda em Literatura-Cultura e Sociedade pela Universidade Federal de Viçosa.

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